Alguém descobriu o Brasil? — Parte 2M. Duarte Ferrari
Pero de Covilhã foi o primeiro português a ir às Índias. Viveu em Sevilha e no Magreb, conhecendo bem o mundo muçulmano. Partiu por terra para o Oriente em 1487, pelo Cairo. Viveu na Etiópia até falecer; em suas viagens, catalogou informações sobre as rotas de comércio marítimo dos árabes no Oceano Índico.
Com essas informações e todo o know how português sobre a travessia da África (acumulado em quase um século pelos navegantes portugueses), Vasco da Gama partiu para a Índia em 1497, com três naus, uma caravela de suprimentos e 150 homens (o que atesta o caráter experimental da viagem; Cabral iria com quase uma dúzia). Do Cabo Branco, adentrou o Atlântico Norte e realizou uma volta, avistando terra de novo somente em Serra Leoa, onde iniciou outra volta, que o levaria incrivelmente perto do Cabo São Roque e do Cabo Santo Agostinho, no futuro Nordeste brasileiro. Voltou à costa africana no último marco de Diogo Cão (África do Sul) e cruzou o Cabo da Boa Esperança, seguindo pela costa oriental africana até a Índia e por lá passou vários meses. Retornou a Portugal em meados de 1499. A viagem de Cabral se preparava.
Como é de conhecimento geral, Cristóvão Colombo havia descoberto a América (apesar de ele ter morrido acreditando ter chegado à Ásia) cinco anos antes da partida de Vasco da Gama, em 1492. Também é bem sabido que Colombo primeiro propôs sua aventura aos portugueses antes dos espanhóis — nada mais natural, uma vez que era Portugal o maior navegante do Atlântico. Uma análise acrítica facilmente levaria qualquer um a considerar os portugueses grandes idiotas por terem recusado Colombo. Mas historiografia se faz analisando os fatos em seu contexto. Na década de 1490, Portugal já adquirira todo o conhecimento necessário para uma rota à Índia pelo leste; além disso, passaram os últimos 75 anos aprendendo a dura navegação atlântica. Não havia o menor motivo para arriscarem mais homens (e Portugal nunca teve uma população para desperdiçar) numa viagem que poderia muito bem dar em nada — principalmente porque já estavam praticamente chegando na Índia contornando a África.
Restou à corte espanhola, que não tinha nada a perder (a não ser três caravelas e alguns homens) financiar a empreitada. Todo o atlântico era dominado pelos portugueses, não havia nada para os espanhóis — o único outro povo europeu com condições de bancar navegações atlânticas.
Um costume dos navegantes portugueses era de que aquele que chegava, relatava ao que partia os detalhes da viagem. Vasco da Gama registrou que, ao realizar sua volta atlântica, percebeu aves terrestres em direção ao oeste. É provável que tenha contado o ocorrido a Pedro Álvares Cabral, que já se aprontava para ir à Índia.
Somente podemos supor, mas é plausível (se ignorarmos as teorias conspiratórias a respeito do conhecimento prévio da futura América do Sul por sociedades secretas medievais) que Cabral tenha decidido abrir um pouco mais sua volta. Se encontrasse mais terras (provavelmente ilhas, pois era só o que se encontrava no Atlântico até então), bom. Se não, continuariam a viagem. De fato, o primeiro nome da terra avistada, o futuro Brasil, foi Ilha de Vera Cruz. Cabral encomendou um relatório a seu escrivão, Caminha, que foi enviado de volta com a barcaça de suprimentos, realizou uma missa, deixou aqui dois degredados e partiu para sua verdadeira missão: comércio na Índia.
Mas Colombo já havia descoberto terras a oeste há oito anos. Não seria natural que os portugueses supusessem a existência de mais terras, tendo em vista que logo de início a Europa desconfiava que as terras de Colombo não faziam parte de Ásia e que o Tratado de Tordesilhas incrivelmente delimitava terras que não existiam ainda?
A resolução deste mistério fica para a próxima e última parte.
M. Duarte Ferrari, de 25 anos de idade, reside em Franca (SP) e é estudante de História na Unesp (Universidade Estadual Paulista).