Ventania de diversosContinuo sem entender muita coisa: o cheiro de mar, o telefone que era pra ser do João, as lembranças que se misturam, Clara, Branca... A cada dia fico um pouco mais livre de Quem, mas contraditoriamente me aproximo mais dele ao mesmo tempo. É algo difícil de explicar. Aliás, muitas coisas têm sido muito difíceis de explicar nos últimos dias.
O sentido das coisas (de novo as coisas) se tornou incongruente demais. É mesmo difícil (de novo difícil) de se entender a razão de tudo. Bem mais possível seria descobrir a não-razão. A insolubilidade das questões que se interpõem é indescritivelmente malévola. Melhor seria que elas não existissem. Por mais que eu tente encontrar uma resposta, ela não toma forma, mesmo nos dias de quase certeza. Ela foge, ruge e se esconde. Nas entranhas do abismo das conseqüências mora o perigo de buscar caminhos desconhecidos.
Antes do fim, nada poderia ser tão torturante como a indecisão. Nela residem as noites seculares, os olhares perdidos e as vozes caladas. As ações tornam-se, na sua presença, meras empurradoras do tempo. E esse passa sem ser visto. Quem não sabe decidir, não tem respostas e não acha o sentido das coisas. Por isso é ainda pior o desconforto. Bem, não sei se estou indeciso ou se apenas não estou encontrando o sentido das coisas.
O fato é que as coisas (sempre as coisas) não andam bem. Sinto um vazio que me traz uma inquietude interminável. Isso, apesar de Quem... O vazio nada tem a ver com as lembranças invasoras. Tem a ver com as minhas próprias lembranças, que têm sido perturbadoras. Às vezes tenho a impressão de que vou explodir. Quero fugir, mas não sei para onde. Quero me encontrar, mas não sei como. Quero querer, mas não encontro o que. Então, prossigo neste martírio que parece ser eterno e inevitável.
Talvez a realidade seja essa: um infinito sofrimento. Porque sofremos porque queremos. E queremos porque não temos. E se não temos e queremos ter, então sofremos por não poder. E se não podemos, queremos poder. E se pudéssemos, teríamos o que queremos querer ter. Mas também iríamos querer ter o que não teríamos, tendo já o que queríamos ter. O querer seria outro amanhã se tivéssemos o que queremos ter hoje. E esse angustiante ciclo se repetiria infinitamente. Tudo muito nebuloso...
Quem começou a pensar sobre o querer quando percebeu que já tinha tudo o que sempre quisera ter. Ou quase tudo. Faltava-lhe um filho. Mas, isso não demorou a se resolver, a partir do momento que o querer dominou a mente de Quem e de Clara. Ela engravidou com certa facilidade, cinco anos depois de se casarem. Foi nessa época que decidiram querer ter um filho.
É tão bom quando decidimos ter e conseguimos isso com facilidade! Pena que nem sempre as coisas (mais uma vez as coisas) são assim tão fáceis (o inverso de difíceis... mais uma vez difíceis). O que Quem e Clara não sabiam é que essa gravidez mudaria para sempre suas vidas. É claro que um filho sempre muda a vida de um casal... Nem precisamos ser gênios para chegar a essa conclusão. Entretanto, não se trata dessa mudança comum. O que aconteceu a Clara e a Quem foi diferente, incongruente demais.