|
Um longo epitáfio e muitas saudadesLembrava-se pouco daquele dia. E em quase dez anos sem seu pai, Katsy Wind nunca fôra visitá-lo no cemitério. Após aquele dia de finados, resolveu relembrar algumas coisas do passado. Na entrada do cemitério, tentou lembrar o que estava escrito no túmulo que sua mãe preparou com tanta dedicação. F... alguma coisa... Algo com essa letra estava escrito na lápide de seu pai. Enquanto folheava as páginas amarelas de sua mente, começou a pensar o que gostaria que estivesse escrito em seu epitáfio. “Esposa amada e mãe dedicada”. Não! Ainda nem casara e, se deixasse um viúvo, provavelmente se casaria três meses depois de seu funeral, pois homens dificilmente ficam muito tempo sozinhos. E filhos? Ainda nem pensava em tê-los e, se existissem, poderiam nunca visitá-la em um cemitério, da mesma forma que ela fez com seu pai. Katsy concluiu que poucas palavras teriam uma grande responsabilidade e que o ideal mesmo seria poder escrever ao menos 1.500 caracteres, nem que flores tivessem de ser proibidas para não atrapalhar a leitura. Começaria escrevendo o que foi. E, para não se confundir ou mesmo se iludir, com a existência de possíveis marido e filhos, consideraria aquele dia como a data de sua morte. “Quando morri, estava feliz pois havia encontrado meu grande amor. Dedicava-me à profissão de jornalista e planejava um futuro ao lado dele. Acredito que agora também esteja sentindo minha falta... Espero, sobretudo, que sinta saudades de mim a ponto de não querer me substituir tão cedo. Mas, se me substituir, nada poderei fazer, daqui, debaixo dessa pesada pedra. Aliás, se pudesse voltar à vida, mudaria algumas coisas como essa pretensão de ser importante na vida de todos. Desejaria passar desapercebida em algumas situações, mas provocaria ainda mais a ira dos invejosos. Teria insistido para que meus pais tivessem tido outros filhos, mas continuaria a adotar irmãos pela vida. Desejaria ter filhos, independentemente de qualquer condição. Visitaria mais os avós, em busca de sabedoria. Seria mais tolerante com as pessoas e sentiria apenas piedade pelos ignorantes; jamais raiva. Não me permitiria dormir sequer uma noite sentindo rancor. E acordaria todas as manhãs sorridente por ainda estar viva. Diria mais vezes ‘eu te amo’ e abraçaria muito mais todos aqueles que merecessem ouvir. Teria ainda mais amigos e não perderia o contato com nenhum deles. Não teria tanto medo e, se errasse, ‘sacudiria a poeira, levantaria e daria a volta por cima’. Não fugiria das dificuldades do dia-a-dia e encararia até meus piores medos. Amaria incondicionalmente todos aqueles que me amam e também aqueles que não gostassem de mim. Leria menos romances e mais livros sobre a história da humanidade e, sim!, começaria pela Bíblia. Continuaria contestando aquilo que não concordo, mas dedicaria mais tempo a ouvir os argumentos contrários. Jamais brigaria com aqueles que amo. Não confiaria em ninguém, no máximo 90%, e em mim! Não esperaria nada de ninguém, para não me decepcionar tanto. Dirigiria mais devagar, correria mais ao ar livre, faria mais exercícios. Acordaria mais cedo para ver o sol nascer e brindaria mais à meia-noite. Não teria ídolos; apenas me amaria mais e mais. Não reclamaria da altura, do peso, da textura, da cor e do reflexo no espelho. Olharia menos para ele e mais para dentro e para frente. Continuaria defendendo os animais, porém, com mais coragem de ver seu sofrimento. Lutaria também pelo direito de ser diferente dos outros, mas, sobretudo, não exigiria que ninguém fosse igual a mim e que pensasse como penso. Enfim, se ainda estivesse viva, faria uma pequena oração cada vez que sentisse o milagre da vida, como a visão, o olfato, a audição, o tato e o paladar...” Continuava a pensar em seu epitáfio quando chegou ao túmulo do pai. Lá estava: “Omar – homem forte – grande homem”. Forte... Também precisaria ser forte para ser e fazer tudo aquilo a que se propôs, se continuasse viva. Com seu dedo em riste, escreveu no túmulo “saudades, pai”. Ficou lá ainda por algum tempo lembrando de todos os bons momentos. Saiu do cemitério se despedindo do pai e pensando em seu epitáfio. Talvez fosse mesmo mais prático optar pela cremação. Afinal, haja espaço para tantos verbos... E com tantas palavras, poderia até mesmo ser odiada por aqueles que detestam ler. “Tolerância, Katsy”, pensou. Seria bom começar hoje mesmo a seguir o que seria seu epitáfio.
|