períodos, versos e outras letras

segunda-feira, 6 de setembro de 2010 


Bruxas e puristas

Mais uma discussão inútil aflorou neste Brasil de eternas discussões inúteis, ao final de outubro. Quando todos e mais uns pareciam mais que acostumados ao Halloween, festinha besta e que virou diversão entre a molecada com (ainda) uns trocos no bolso, eis que surge uma legião de puristas. Revoltados com o que seria uma invasão bárbara, a jorrar sangue pelas ruas lisinhas e cheias de margaridas de nossas belas favelas, os puristas muniram-se de escudos e foram à luta. Morte às bruxas, viva o saci-pererê.

Como se o Halloween fosse, evidentemente, o desmonte da memória, da intelectualidade, da cultura latino-americana, os puristas alardeiam, berram e clamam para que o brasileiro resista. Esqueça a crise, esqueça o Dirceu, esqueça o superávit fiscal, esqueça a taxa de juros, esqueça o morro que está louquinho para invadir a pista. O importante nesse momento é preservar a cultura. A cultura do saci.

Os puristas parecem não lembrar que o Halloween não foi vendido ao Brasil como se ele fosse uma cultura, uma tradição superior. Essa comemoração tolinha cresceu na esteira das escolas de inglês. Com a classe média vendo a extrema necessidade de seus fedelhos apreenderem um idioma global, essas escolas cresceram com rapidez e com a qualidade de ensino da língua sendo cada vez mais duvidosa.

O dia das bruxas passou a ser uma bela oportunidade para se ajudar no aprendizado. Os alunos se divertem, põem uma abóbora debaixo do braço, comem algumas guloseimas nojentas e com bilhões de calorias e aprende que em inglês gordo é fat. Nenhuma desapropriação cultural. Ainda não se têm histórias de “reforma folclórica” por estas paragens tristes.

E o saci? Bem, o saci é um belo desconhecido dos fedelhos classe média. Esses garotos conhecem os personagens de Matrix, usam internet como neuróticos, jogam couter strike como se fosse a última chance de sobrevivência. Aqueles que deveriam lembrá-los de que existe uma cultura própria desta terra, de que há um saci em uma biblioteca por aí não o fazem. E perceba que boa parte desses que deveriam lembrar os moleques se alia aos puristas de plantão...

As escolas simplesmente relegam o folclore ao dicionário. Não se estuda folclore em história, em artes, em língua portuguesa ou qualquer outra modalidade. Os currículos buscam fixar assuntos mais quadrados, aqueles que serão procurados nos vestibulares da vida. Será que os puristas têm idéia de quantos livros de Monteiro Lobato, com lendas e lendas de saci, foram distribuídos às bibliotecas escolares no último ano? Isso, evidentemente, levando-se em conta que apenas algumas escolas possuem bibliotecas.

Que se comemore a besteirada do dia das bruxas, dos doces ou travessuras, que se comemore o dia do mago Merlin. E que se comemore o saci, claro. Mas, para que a molecada o comemore é preciso conhecê-lo. Que os puristas, ao menos, comecem sua cruzada do começo e parem com mais essa discussão tão útil quanto a viabilidade de se desvendar o sexo dos anjos.

 Flávio Bredariol escreve no Diletra todas as sextas-feiras

Flávio Bredariol, 31 anos, é jornalista. Com passagem pelo jornalismo especializado e assessoria de imprensa, atua, no momento, na comunicação de órgãos públicos e como free-lancer. Não defende nada, é contra quase tudo e tem plena consciência de que a possibilidade de se chegar a lugar algum é imensa.

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