|
Caldo de TrypanosomaHoje à tarde, caso o calor e a alta temperatura persistam, muita gente vai dar aquela paradinha na lanchonete, no barzinho ou mesmo no ambulante da esquina para tomar uma água de coco, um refrigerante ou um suco de laranja. Neste instante, cada um aproveita para enxugar o suor, respirar fundo e recobrar os ânimos num dia conturbado, ainda sob o efeito dos atrasos provocados pelo feriado prolongado da última semana. No nosso atual mundo pós-moderno, o corre-corre é muito mais acentuado que há alguns anos. Prova disso é que num passado não tão distante, as pessoas achavam tempo inclusive para contar piadas em meio a goles de coca-cola. Hoje, porém, o tempo voa e o bom humor virou raridade. Não dá nem para fugir, pois até o celular conspira contra nós! Somos achados em qualquer lugar e forçados a deixar o suco pela metade. Quando menos esperamos, um “torpedo” indesejável explode no visor do aparelho telefônico e frustra nosso efêmero descanso: “Reunião às 16h. Assunto: vendas em queda”. Resultado: ansiedade, gastrite, médico, remédio, cama. A pressão, o estresse, o mal humor... tudo isso faz mal para o corpo e para a alma. Mas infelizmente, é apenas um dos males do mundo pós-moderno. Há muitos outros. Há alguns dias, por exemplo, mais de trinta pessoas que deram uma paradinha em lanchonetes do litoral norte de Santa Catarina, às margens da BR 101, se deram mal porque, ao invés de pedirem uma água de coco, optaram por tomar caldo de cana contaminado com “Trypanosoma cruzi”, o germe causador da Doença de Chagas. Provavelmente não estavam estressadas, pois eram turistas em férias. Mas quem disse que o mundo neoliberal nos brinda apenas com o estresse? A mesma pós-modernidade que nos trouxe a alta tecnologia da internet e da engenharia genética permite que doenças antigas como o Mal de Chagas (descoberto em 1907) continuem sem cura. Simplesmente porque é uma doença exclusiva da América Latina, ou seja, um problema das populações pobres e miseráveis que vivem em choças, casas de barro e de pau-a-pique. Não há interesse dos laboratórios internacionais, portanto, na produção de uma droga que teria um custo altíssimo de investigação para amenizar as conseqüências de uma doença que acomete populações de baixo poder aquisitivo no Brasil, no Paraguai, na Bolívia, na Colômbia e em regiões paupérrimas da América Central. Na visão das empresas que aderiram ao “avançadíssimo” e “ultra-civilizado” modo de vida capitalista pós-moderno, não há seres humanos pobres e doentes... só há mercados consumidores pouco atrativos, ou seja, gente que não tem dinheiro para comprar uma simples aspirina. E quem quer investir em mercados que não dão retorno financeiro? A mercantilização de serviços essenciais, como os sistemas de saúde e educação, fornecimento de água e energia, é uma das características evidentes do novo capitalismo. Tudo virou mercadoria. Até mesmo a vida de cada cidadão, que paga impostos (e como paga!) e contribui com sua força de trabalho para o progresso do país. Se a lógica neoliberal não fosse assim tão cruel, seria menos preocupante tomar um caldo de cana nas praias catarinenses, onde várias pessoas já morreram por causa da contaminação do bicho barbeiro. Valeria a pena até correr o risco e, no máximo, mais tarde dar uma passadinha num posto de saúde para tomar um medicamento 100% eficaz contra a chupança. Mas o pior é que sobrou até para os comerciantes paulistas. Segundo a Folha de São Paulo, caíram 80% nas lanchonetes da capital as vendas da garapa, cuja procedência não tem nada a ver com a bebida vendida na BR 101. É a globalização do medo, um outro subproduto do neoliberalismo. Façamos um brinde ao nosso admirável mundo novo, que evolui sem progredir... e à história lenta da justiça social do Brasil, cujas páginas parecem continuar coladas ao capítulo do século retrasado.
|