Histórias de H: Outra de terapiaNéstor Beremblum
— Bem, hoje estou quase acabando... só falta um paciente — diz o terapeuta meio cansado.
E o paciente chega pontualmente. A secretária o anuncia. Bela secretária...
— Hum. Algum dia vou ter que fazer alguma coisa com ela, afinal é solteira. Mas que diferença faria se fosse casada? Acabou de brigar com o namorado... um babaca, por sinal. É gostosa... é. Eu sei que é. É por isso que a contratei. Bem, não só por isso — reflete o terapeuta, fazendo um exercício analítico para aquecer antes do próximo atendimento.
— Entre aí, entre aí — convida o terapeuta.
E o homem entrou. Claro.
— Deite-se — indica o terapeuta. E o homem o olha de um jeito desconfiado — Bem, se preferir, pode se sentar — acrescenta o profissional, com o objetivo de suavizar o início.
O paciente se sentou. E o olhava. E não dizia palavra alguma.
— Bem, o senhor dirá... — e, dessa maneira, indagou ao homem que permanecia em silêncio.
— Veja bem, doutor, eu não quero falar — disse secamente o paciente.
O terapeuta já conhecia bastante esse comportamento. Havia muitas pessoas que chegavam à sala e faziam essa afirmação. Logo, quando o tempo se esgotava, ele e a secretária, muitas vezes juntos, tinham que tirar o paciente da sala e obrigá-lo a deixar de falar. Primeiro, pedindo-lhe, depois, na marra. E pensou: — Este é mais um que se faz de durão, e depois... já sei o que me espera.
Adotou a estratégia conhecida e praticamente infalível de ficar calado, olhando o paciente. E assim se passaram cerca de dez minutos.
Parecia uma partida de xadrez. Olhavam-se um ao outro. E nenhum fazia movimento algum. O terapeuta se cansou. E disse: — Importa-se que ascenda um cigarro?
Um ligeiro movimento da cabeça do homem, em ambas direções, de forma horizontal, fizeram-lhe entender que não. Que não ligava.
Falhou a tentativa, foi o que pensou o terapeuta. Incomodava-o bastante o fato de não conseguir levar do jeito que ele queria a sessão. Afinal, tratava-se da disputa do poder entre o profissional e quem vem consultá-lo. Embora o poder esteja sempre do lado de quem paga. E foi precisamente isso o que o paciente lhe disse.
— O senhor está ficando nervoso. É porque não falo nada? Na verdade, doutor, estou lhe pagando para isso. Para não falar nada. Essa é a diferença.
— Qual é a diferença? — perguntou, jogando-se para trás, sabendo que começaria agora o papo.
— O senhor está acostumado a que lhe paguem para ouvir. Eu não vim aqui para isso. Pago-lhe para não falar. E para que o senhor também fale o mínimo possível.
O terapeuta ficou surpreso. Meio comovido com semelhante afirmação. Mas estava curioso. Queria saber o raciocínio que levava alguém a agir dessa maneira.
— Muito bem, então. Ficaremos assim, se o senhor quiser. Mas gostaria de saber por que esse receio em falar. Podemos manter uma conversa qualquer. Sobre assuntos triviais. Inclusive sobre a minha secretária... O que lhe pareceu? — perguntou, procurando certa cumplicidade, que entre os homens costuma funcionar logo. Uma mulher.
— Veja bem, doutor — disse o homem — na verdade, é interessante...
— Viu? — interrompeu o terapeuta — fui eu que a escolhi...
— Não doutor, não estou falando sobre sua secretária... estou falando do recurso que o senhor tentou utilizar.
— Mas esse homem está achando o que? — pensou para si o analista, já aproximando-se da irritação. E quando ia dizer alguma coisa, a primeira que ia sair, o homem continuou:
— Interessante como o senhor quer quebrar meu desejo, como quer que eu fale. E eu lhe pergunto: o que são as palavras?
— Olha, veja bem — tentou se acalmar o analista — aqui quem questiona, analisa e tudo mais sou eu... viu?
— O senhor não precisa se irritar. Apenas estou lhe perguntando o porquê do fascínio com as palavras — respondeu calmamente o paciente.
Nestas alturas da conversa, estava difícil saber quem era quem. Mas o analista deu uma mostra de sua esperteza. Em um determinado momento, ele se levantou da poltrona, foi em direção à janela, olhou pra fora e ficou assim, por alguns instantes. Virou-se para o paciente, olhou e continuou a andar para o outro lado da sala. Tudo feito com movimentos bem vagarosos. Foi então que abriu a porta. E voltou a se sentar.
O homem não conseguia entender nada do que havia acontecido. Mas, não fez pergunta nenhuma.
O analista abriu um livro, e começou a dar olhadas. Não lia.
— Escute, doutor — interrompeu o homem — eu sei que talvez seja algo incomum o que peço, mas não quero falar.
— Muito bem, eu não faço questão que o senhor fale. Vou cobrar o mesmo valor pela consulta. Assim, fale uma ou duas mil palavras. Pode ficar à vontade.
— Eu estou à vontade, muito obrigado. O que não gostaria é que o senhor ficasse desconfortável na sua própria sala — continuou o paciente.
— Veja bem, meu senhor... eu não estou desconfortável. Apenas estou curioso para saber o que levou o senhor a tomar uma atitude assim, vir para uma consulta com o intuito de não falar. Sem dúvida, o senhor sabe que é bem mais barato, entrar em um cinema, sentar-se em uma praça, ou até ir para um puteiro, se o objetivo é não falar.
A última observação pareceu chocar ao paciente. Mas reposto, respondeu: — Está vendo qual é o problema? Nem o senhor consegue captar o quid da questão... O senhor já percebeu, doutor... pensou alguma vez que as palavras são veículos de confusão mais do que comunicação?
— Como assim? — respondeu o terapeuta, curioso.
— Pois é. O senhor é um profissional da escuta, compreensão, análise. E mesmo assim, ainda não conseguiu entender. Vou lhe explicar com clareza. Eu não pedi para não falar. O que quero é achar um espaço onde não existam as palavras. O silêncio, não apenas como capacidade expressiva. Mas como valor absoluto. Afinal, doutor, as palavras nos aprisionam. Somos reféns delas. Compreende agora?
O analista ficou alguns instantes pensativo. Não disse uma palavra sequer. Pois agora via que devia escolher as palavras certas, além do momento certo para dizê-las. Nunca havia reparado no que acabava de lhe dizer. E o pior é que era uma verdade, tão óbvia, tão evidente, que nunca havia ligado para isso. E pensava no porquê dessa falha. Dessa desatenção. E concluiu: viver em sociedade dá nisso! Como ninguém repara na trapaça que as palavras nos tendem, ninguém liga para elas. São pronunciadas, jogadas ao vento, sem preocupação nenhuma. E como todos fazem isso, ele acabou fazendo também.
Entrou em uma espiral de raciocínios que o levaram ao estado alfa, como se estivesse fazendo ioga ou meditação. Esqueceu por completo de tudo, e do homem que tinha na sua frente.
— Doutor! Doutor! — ouviu em um momento, e percebeu que alguém estava gritando a escassos vinte centímetros do seu rosto. Era a secretária. Linda, como sempre. Lábios vermelhos, cabelos vermelhos, pele branca. Saia comprida. Observava até os mínimos detalhes dela.
— Doutor! — voltou a gritar a moça — o senhor está bem? É que o paciente foi embora, e deixou o pagamento da sessão comigo, pois me disse que não queria interrompê-lo. Deixou um cheque e eu aceitei. Não há problema, não é, doutor?
Ele a observava... que bela criatura. Se pudesse dizer-lhe quanto gostava dela. Quanto tesão havia nele acumulado. Com certeza ela sabia, não era boba. Aliás, não tinha nada de boba. Se fazia de boba. É uma vantagem que as mulheres têm sobre os homens. Uma mulher boba, neste mundo machista, pode ser desculpada se leva com ela um par de seios fartos, uma bunda de encantar. Um homem bobo está acabado.
O cérebro do analista estava bloqueado. Não conseguia pronunciar palavra, tal o feitiço desse estranho homem que apareceu esse fim de tarde.
A secretária aguardou por alguma palavra, alguma resposta, pois tinha marcado com o namorado para sair, pegar um cinema e passar a noite em um motel. Estava com pressa. Quando percebeu que o analista não dizia nada, disse: — Bem doutor, vou indo, sabe? Até amanhã, se o senhor não precisar de mais nada...
O analista a olhava, quase babando. Na verdade, babando mas para dentro. Fez-lhe um sinal com a mão expressando que podia ir, e outro levando a mão à boca, jogando-lhe um beijo. Um gesto carinhoso, como o que fazem as crianças, quando são bem crianças. Em um mundo onde há maldade, sim. Mas é um outro tipo de maldade. Sem a dureza, sem a crueldade das palavras. Que potencializam o pior, mais que o melhor, das pessoas.
Néstor Beremblum, 33 anos, é comunicador social. E-mail: equilibristaxxi@msn.com